Foi inaugurada sábado (7) a Galeria Novocais, em Santo Cristo, região portuária do Rio de Janeiro. Com dois andares e área total de 312 metros quadrados, o local será dedicado à memória da região que já foi o principal polo econômico da cidade.

A mostra permanente, Porto Cidade – a Memória do Lugar, resgata a história urbana e cultural da zona portuária, num recorte entre os anos de 1800 e 1980 passando pelo porto desde a Praça Mauá, Morro da Providência, Morro da Conceição, Santo Cristo, Gamboa, Saúde até o centro da cidade.

Estão expostas ao público na galeria mais de 300 imagens de acervos como os do Instituto Moreira Salles, Museu da Imagem e do Som, a Biblioteca Nacional, Docas, Marinha, O Globo e Jornal do Brasil, além de desenhos de Heitor dos Prazeres. Na mostra, os trabalhos foram reproduzidos com a tecnologia backligth, ou seja, impressão disposta em armações com iluminação interna por trás das imagens.

Segundo a curadora, a arquiteta Ana Borelli, que também projetou a cenografia do espaço, no térreo foi exposta a “malha afetiva” da região portuária, passando por fotografias do século 19 e com destaque para a primeira obra da região, entre 1903 e 1911, quando foi feito o aterro e o construído o porto. A linha cronológica vai até as obras do Elevado da Perimetral, demolido em 2013 e 2014, e termina em 1980. Ela destacou que a galeria também contribui para a revitalização da região portuária.

Esse espaço passa a ser o ponto de encontro com o passado, com o resgate da memória da região. Para os moradores daqui, dá uma sensação de pertencimento e um orgulho tão grande. É importante você conhecer o passado, até para saber o que aconteceu aqui, a região é tão rica. Esse foi o pensamento: ter um espaço que preservasse a memória da região e que fosse um ponto em que a pessoa pudesse entrar e se transportar para esse período”, disse.

Para incluir os moradores da região, foi montada a sala Sebastião Pires – Em Busca do Tempo Perdido, dedicada ao fotógrafo nascido e criado no Morro do Pinto e que registrou entre as décadas de 1940 e 1970 a vida cotidiana e festiva nos morros da região. Guardiã do acervo de Pires, a moradora do Morro da Providência Aline Mendes contou que, após uma conversa sobre a exposição do gravurista Rossini Perez no Museu de Arte do Rio (MAR), ela lembrou-se do trabalho de Tião, como era conhecido Sebastião Pires, e passou meses procurando por ele. Até encontrá-lo uma semana antes de sua morte, em 2015, no Hospital Souza Aguiar.

“O Tião estava bem, o rosto estava o mesmo, o mesmo cabelo, só que completamente branco. Hoje eu consigo entender que foi um encontro para passar o bastão. A Isabel [a aposentada Isabel Pires, irmã de Tião] precisava se desfazer dos bens do Tião e não entendia muito bem o valor histórico real de todo esse trabalho. Assim o acervo acabou comigo. Ainda tem muitos negativos de trabalhos não expostos. Vou tentar uma parceria pra tentar trabalhar esse acervo de negativos dele”.

Isabel Pires se emocionou ao ver exposto em uma galeria o trabalho que Tião fazia como hobbie e para conseguir uma renda extra. “É muito bom mesmo o trabalho dele ser reconhecido. Ele nem sonhava na vida dele ter um negócio desse, mesmo depois de morto. Antigamente não tinha esse negócio de celular, então o negócio mesmo era foto, ele adorava a profissão e passava o fim de semana todo fotografando. Ele fotografou por mais de 30 anos, então tem muita coisa.”

Completa a galeria uma homenagem ao músico Ernesto Nazareth, nascido no Santo Cristo em 1903, com o espaço Nazareth Celestial. São três salas de conteúdo imersivo e interativo dedicados à vida e obra do compositor de choros clássicos como OdeonBrejeiro.

Na abertura do espaço, a pianista Maria Teresa Madeira, que lançou no ano passado um box com 12 CDs contendo a obra completa do artista, num total de 215 músicas, fez um recital ao ar livre em tributo ao compositor. De acordo com ela, os espaços onde ele viveu refletem-se em sua música.

“Nazareth escreveu músicas em muitos gêneros musicais diferentes. Valsas, tangos, marchas, hinos de escola. E o processo de ele ter sido morador dessa área com certeza influenciou no dia a dia dele, ele era uma pessoa muito antenada, era culto, um bom pianista, mas era acima de tudo um interessado no que se fazia naquele momento. Então o local e o porto, revivendo essa história junto com a dele, a gente só tem a ganhar em termos de memória musical e histórica. A estrutura da exposição foi feita com muito carinho, mostra o quanto ele era plural.”

As visitas são gratuitas de segunda a sexta-feira das 10h às 17h e aos sábado entre 11h e 16h, com agendamento de visitas guiadas para escolas e grupos.

Da Agência Brasil

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